Day 5
Fairbanks
Ainda rumo ao norte pela George Parks Hwy: Nenana e Fairbanks, a segunda cidade do Alasca
Rumo a Fairbanks
Encerrado o parêntese no parque do Denali, seguimos novamente em direção ao norte com o objetivo de chegar a Fairbanks, sempre pela George Parks Hwy.
Nenana e o rio Tanana
No caminho paramos em Nenana, uma das tantas aldeias indígenas desenvolvidas depois da corrida do ouro, que agora tenta com dificuldade sobreviver entre numerosas casas em ruínas. Agora que já não há razões para procurar minerais auríferos, a população remanescente é basicamente indígena e se dedica sobretudo à pesca de salmões por meio das chamadas fishwheels (sistemas flutuantes que a corrente da água faz girar, puxando os peixes para cima, enquanto uma leve inclinação os faz cair em um cesto colocado na margem).
Provavelmente os guias têm razão quando escrevem que a única razão para visitar Nenana está ligada à aposta famosa em todos os EUA sobre o momento em que o gelo se romperá no rio Tanana (coisa que normalmente acontece entre abril e maio). A atmosfera é quase surreal, com neblinas que vêm e vão como em um filme de terror. Visitamos a área ao longo do rio, onde também se encontra uma antiga estação ferroviária hoje transformada em museu.
Pouco depois ouvimos o inconfundível apito da locomotiva amarela e azul da Alaska Railroad, que cobre o trecho de Anchorage a Fairbanks. A aldeia fica na confluência do Nenana River, que nos acompanha desde Broad Pass, descendo da Alaska Range, com o Tanana, que por sua vez chega do leste e nasce da mesma cadeia. O Nenana terminará depois sua corrida no majestoso Yukon e, portanto, no mar de Bering. A água que desce ao sul de Broad Pass se concentra em grande parte em Talkeetna para depois correr rumo ao sul e desaguar no Pacífico.
Como já observado em outros lugares, e como ainda teremos oportunidade de apreciar, os Visitor Centre são muito bem montados (às vezes chegam até a transbordar opulência) e contam com pessoal extremamente competente e gentil, capaz de fornecer informações não apenas sobre a região em que se está, mas sobre todo o país. Vemos também um simpático álbum fotográfico emprestado por algum morador da região, onde se vê um alce entrando dentro de uma casa, com a dona oferecendo-lhe as honras da casa, enquanto o animal parece sentir-se à vontade entre paredes domésticas.
Seguimos com algumas gotas de chuva, que depois dão lugar a aberturas após algumas dezenas de milhas, e com o céu se recortam diante de nós colinas suaves cobertas de abetos, intercaladas por lagos frequentes.
Ester, ghost town sobre o permafrost
Ester é uma ghost town muito original, composta por alguns velhos edifícios.

Sabia-se que é uma comunidade bastante atípica, nascida da vontade de alguns místicos de permanecerem isolados do resto do mundo. Os mais resistentes parecem ter conseguido, pois os poucos que restaram dividem uma localidade quase inabitada, com as habituais casas de madeira que começam a apresentar inclinações visíveis, causadas pelos danos do permafrost. Destaca-se o Malemute Saloon.
Fairbanks entre história local e vida do norte
Pouco antes do meio-dia estamos em Fairbanks, segunda cidade do Alasca, com 80.000 habitantes a 64° de latitude norte. Surgida também após a corrida do ouro, é a porta para a last frontier, para o Ártico. Vamos à Northern Alaska Adventures para fazer um pré-check-in para o dia seguinte e dedicamos a tarde à visita desta interessante cidadezinha.
Começamos pelo Pioneer Park, percorrendo-o de ponta a ponta. É um parque urbano que poderia ser considerado um recipiente de museus e de história local. Em estilo ostensivamente americano, tudo é feito em grande escala, mas não sem encanto. Consideramos de particular interesse o Native Center, que exibe um filme longo mas claro sobre o passado e o presente dos nativos, com uma marcada veia polêmica em relação aos conquistadores estadunidenses e aos métodos pelos quais essa conquista aconteceu.
O próprio museu de história local, centrado na epopeia da colonização do Alasca, é muito instrutivo. Objetos de todo tipo testemunham as dificuldades enfrentadas pelos pioneiros que chegavam em busca de fortunas ligadas à procura do ouro. Visitamos também o interior do barco a vapor Nenana, onde se encontram maquetes das várias localidades situadas ao longo dos rios Nenana e Yukon, percorridos pela embarcação até algumas décadas atrás. Passamos depois a visitar a residência do primeiro governador do Alasca.
Em seguida nos deslocamos para a periferia para ver uma criação de bois-almiscarados e, na área universitária, o jardim botânico, perto do qual se encontram algumas renas. O jardim merece uma visita atenta pela qualidade das flores e dos legumes cultivados, especialmente considerando que estamos poucos graus abaixo do Círculo Polar. Algumas plantas são comuns às das nossas montanhas, enquanto os legumes superam os nossos em peso e tamanho (em particular, as couves são enormes, às vezes passam de 30 kg).
Vamos conhecer John Davis, o proprietário do B&B que nos hospedará esta noite (Ah, Rose Marie). Não há ninguém em casa, mas na porta encontramos um bilhete com o nosso nome, contendo as boas-vindas e o convite para nos acomodarmos no quarto indicado com as nossas bagagens, já que está tudo aberto. Isso nos deixa estarrecidos: como é possível confiar a ponto de deixar a porta de uma casa perto do centro completamente aberta, sem medo de que seja saqueada? Se estas são as terras selvagens, dá vontade de perguntar o que seriam então os lugares onde vivemos. Instalamo-nos rapidamente e, quando estamos prestes a sair, chega John, que com algumas palavras em um italiano razoável tenta fazer com que nos sintamos mais confortavelmente em casa.
Downtown Fairbanks e a riqueza do norte
Saímos para dar uma volta no centro, passando pela Golden Heart Plaza, naquele que foi o núcleo original da cidade, surgida também como centro de serviços para os stampede (aventureiros em busca de ouro) de forma bastante casual. Um enorme desenvolvimento foi depois criado pela descoberta das bacias petrolíferas do norte, e ainda hoje a cidade transborda riqueza ligada ao ouro negro.
Sendo sede de uma universidade ligada a experimentos em climas rígidos, com mais de 8.000 estudantes, mantém também uma imagem de descontração que se soma à do business, criada pelos muitos bancos e empresas ligados à indústria extrativa. Na praça encontra-se a estátua em homenagem aos primeiros colonizadores vindos da Sibéria há 20.000 anos, os chamados índios ou esquimós quando se faz referência às regiões nórdicas.
Ao longo do rio Chena encontra-se também o Visitor Centre, de dimensões desproporcionais, que guarda no interior todo tipo de informação que se possa desejar. Há também uma galeria-museu onde se pode ver a história da região, que afinal é também a do Alasca e, consequentemente, o fio condutor de quase todos os museus: a vida dos nativos – corrida do ouro e conquista do território em prejuízo dos primeiros habitantes – desenvolvimento consequente à Segunda Guerra Mundial – petróleo. No meio de tudo isso ainda cabem alguns animais empalhados e informações sobre o ambiente.
Sem dúvida, o downtown é a representação perfeita de que confortos se podem obter com as receitas ligadas ao petróleo, já que o turismo sozinho não poderia de modo algum sustentar tais investimentos. Em geral, todo o Alasca deve seu bem-estar a esse recurso, que, se não existisse, faria dele um Estado economicamente dependente do restante dos EUA. Sobretudo as estruturas públicas e aquelas ligadas à promoção do turismo ostentam um bem-estar que chega a parecer até desmedido no contexto alaskano.
Immaculate Conception Church e noite em Fairbanks
Visitamos por fora também a branca Immaculate Conception Church, que fica do outro lado do rio. O edifício foi deslocado em 1911, fazendo-o deslizar sobre o rio durante o inverno, levando-o assim algumas centenas de metros adiante e para a margem oposta. Este caso (assim como o ônibus escolar de Chris McCandless) oferece o pretexto para mencionar como, paradoxalmente, é mais simples deslocar-se durante o inverno do que no verão. O gelo transforma os rios em uma faixa livre de árvores e permite a passagem até de veículos pesados, além de compensar a falta de pontes. No norte, tanto os cães quanto as motos de neve podem circular por toda parte, e há povoados que só podem ser alcançados por veículos motorizados no inverno.
Jantamos em um belo restaurantezinho no centro de Fairbanks, o Soapy Smith’s. Estilo de outros tempos, muito característico, com belas fotos de época penduradas nas paredes. Tom muito informal e exuberante por parte do garçom, por momentos quase exagerado. O salmão está na média, ou seja, bom. Talvez falte algum acompanhamento, mas o sabor é o dele. Vale lembrar que, para manter alto o padrão de qualidade, a criação de salmões no Alasca é proibida.
Como nos próximos dias deixaremos a “civilização” para mergulhar no vazio nórdico, vamos fazer algumas compras aproveitando o fato de que os supermercados fecham tarde ou nem fecham. Voltamos com a visão de um pôr do sol incandescente. O sol poente das 22h30 reveste de rosa as poucas nuvens que passeiam pelo céu. Um sol que nos fez companhia durante toda a tarde; em certos momentos chegamos até a abrir ligeiramente as janelas e estivemos perto de ligar o ar-condicionado.














