Day 6
Ushuaia I
Natal do Sul, mas com neve no Cerro Martial e visita ao P.N. Terra do Fogo
A face urbana de Ushuaia
Ushuaia é a cidade mais austral do mundo e é exatamente como imaginamos. Situa-se em frente ao Canal de Beagle e às ilhas Navarino e Hoste (anteriormente em território chileno), uma escadaria que desce em direção ao mar com estradas por vezes muito íngremes e paralelas ao porto que são planas. Tudo isto torna-o muito agradável, excepto na periferia onde não teríamos imaginado a presença de habitações públicas, talvez também pelo facto de acolher uma grande base naval e ser um ponto de intercâmbio entre os dois oceanos para contentores. Na verdade, surpreende a presença de tantos contentores num local longe de tudo, tendo em conta que só podem chegar e sair por mar e o sertão é formado apenas por belas e isoladas montanhas. É também o ponto de partida para a navegação na Antártica, cujo custo ultrapassa os 3.000 dólares para um passeio de 9 dias. Diego nos conta que não neva muito na cidade (10/15 cm de cada vez) e as temperaturas no inverno não descem abaixo de -10/12°. Resta imaginar como é possível dirigir em uma cidade construída em forma de escada e cujas ruas descem diretamente em direção ao mar. O Canal Beagle não congela no inverno, por isso a navegação é segura. Em mar aberto, porém, a situação torna-se muito mais fria e mais a sul o próprio oceano forma uma espessa camada de gelo.

Política e sociedade
Pequeno-almoço no quarto pois temos também uma kitchenette com tudo o que necessita para começar o dia com o pé direito. Às 8h o tempo não oferece grandes ilusões, mas devido à regra de que se pode vivenciar as quatro estações num só dia ainda saímos confiantes. Na realidade hoje viveremos apenas duas estações: inverno com neve no Cerro Martial e outono com chuva na visita ao parque. Ainda temos um crédito com as duas temporadas restantes que iremos arrecadar amplamente nos próximos dias.
Excursão à Bahia Lapataia
Cerro Martial, a 7 km da cidade e excursão ao glaciar Martial. Subimos com o carro até ao início da telecadeira, onde dada a hora e a data não há ninguém. Subimos a pista de esqui enquanto a chuva se transforma em neve. Recorde-se que, pelo menos nominalmente, estamos no verão e que a pista não é caiada. No entanto, deve ser evocativo esquiar numa encosta que parece descer até ao mar. Um bela trilha leva-nos a uma floresta que termina no início da morena. Subimos atravessando alguns campos de neve para chegar ao ponto onde começa o glaciar, bem coberto de neve. O vista da cidade e no porto seriam magníficos, se ao menos pudessem ser vistos. Entretanto, a neve cai forte e oferece-nos assim um ambiente caseiro, sob o lema de que Natal não é Natal sem neve. Isto ainda é abundante nas encostas se tivermos em conta que o solstício de verão acaba de passar. Descida em direção ao centro da vila, onde os museus estão encerrados para férias. Então, depois de um chocolate quente na usina via São Martinho, na chuva vamos visitar o Parque Nacional Tierra del Fuego. Situa-se a cerca de vinte quilómetros da cidade num ambiente virgem e incontaminado, coberto pela típica vegetação "Fueghina" de faias e turfeiras. A certa altura o céu se compadece e para de chover, permitindo vislumbrar alguns vislumbres de céu. Um Bahia Lapataia, local onde terminam todas as estradas, é o início (ou fim) da Rota 3, que começa em Buenos Aires e percorre mais de três mil km ao longo do Atlântico para chegar a este local, que continuando alguns quilômetros chega ao Chile a oeste ou a algumas ilhas que o separam do mar Antártico ao sul. Vemos alguns restos de caranguejos, ali famoso centola que deu sabor a vários jantares.
No caminho em direção a Senda de la Baliza vemos o trabalho dos castores, que modificaram a geografia do local, construindo inúmeras barragens e desviando o fluxo dos riachos. Isso resultou na criação de pequenos lagos artificiais com a consequente morte de boa parte da floresta que se encontrava em seu interior. Os castores não foram importados sem motivo claro e causaram muitos danos ambientais.
No dia de Natal costuma-se fazer um piquenique ao ar livre como aqui acontece na segunda-feira de Páscoa, por isso o parque fica lotado de merenderos empenhados em grelhar o saboroso bife. O perfume que exala da folhagem causa efeitos estimulantes, quase surpreendentes. Um raposa cinza, também amante de parrilla, se afasta um pouco das mesas em busca de restos e possivelmente de alguma distração.
Intrépidos, enfrentamos mais uma caminhada essencialmente plana no caminho do Hito XXIV que leva à fronteira com o Chile. Corre ao lado do Lago Roca em uma bela floresta de lengas. De particular interesse são as espécies de fungos parasitas que se fixam à casca das árvores e caem no chão, mantendo uma superfície esponjosa. Mais tarde descobriremos que são chamados de Pão dos Índios. Você também vê muito visco, ou pelo menos um parente próximo dele, que aqui se chama farolillo chino. Tem uma cor mais amarelada e as folhas são muito finas, libertando uma espécie de penugem. No início do caminho existem também vários arbustos calafate com frutos pendentes.
Voltamos a Ushuaia para um merecido jantar de truta recheada e lomo tournedos (um cubo de carne com queijo habilmente inserido dentro).

Sele tudo com doce de leite de baunilha. Para acompanhar a refeição, uma cerveja local com um nome inconfundível: Beagle.
Noite em Ushuaia
Uma caminhada em direção ao porto permite ver momento do pôr do sol. Mesmo que não seja totalmente claro, as nuvens que se refletem no mar verde-oliva criam imagens dignas de grandes pintores. O porto e as montanhas ao fundo completam o quadro. Apesar de já serem 21h30, o sol brilha de vez em quando, deixando os seus raios filtrarem-se na água para criar alguns efeitos especiais. Ele vai esperar pelo menos mais uma hora antes de afundar nas alturas do parque.








